sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O MITO DA HOSPITALIDADE




Júpiter, o deus criador e seu filho Hermes, quiseram saber como andava o espírito de hospitalidade entre os humanos. Travestiram-se de pobres e começaram a peregrinar pelo mundo afora. Foram maltratados por uns, expulsos por outros.

Depois de muito peregrinar tiveram de cruzar por uma terra cujos habitantes eram conhecidos por sua rudeza. As divindades sequer pensavam em pedir hospitalidade. Mas à noitinha passaram por uma choupana onde morava um casal de velhinhos, Báucis e Filêmon. Qual não foi a surpresa, quando Filêmon saiu à porta e sorridente foi logo dizendo: Forasteiros, vocês devem estar exaustos e com fome. Entrem. A casa é pobre mas aberta para acolhê-los.

Báucis ofereceu-lhes logo um assento enquanto Filêmon acendeu o fogo. Báucis esquentou água e começou a lavar os pés dos andarilhos. Com os legumes e um pouco de toucinho fizeram uma sopa suculenta. Por fim, ofereceram a própria cama para que os forasteiros pudessem descansar.

Nisso sobreveio grande tempestade. As águas subiram rapidamente e ameaçavam a região. Quando Báucis e Filêmon quiseram socorrer os vizinhos, ocorreu grande transformação: a tempestade parou e de repente a pequena choupana foi transformada num luzidio templo dourado. Báucis e Filêmon ficaram estarrecidos. Júpiter foi logo dizendo: por causa da hospitalidade quero atender um pedido que fizerem. Báucis e Filêmon disseram unissonamente: o nosso desejo é servir-vos nesse templo por toda a vida. Hermes não ficou atrás: quero que façam também um pedido. E eles, como se tivessem combinado responderam: depois de tanto amor gostaríamos de morrer juntos.

Seus pedidos foram atendidos. Um dia, quando estavam sentados no átrio, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes. Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa Tília. As copas e os galhos se entrelaçaram no alto. E assim, abraçados, ficaram unidos para sempre. Os velhos, até hoje, repetem a lição: quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus.

Autor: Leonardo Boff

terça-feira, 9 de agosto de 2011

COMO OS HOTÉIS PODEM MELHORAR SUAS RECEITAS EM ALIMENTOS E BEBIDAS



A maioria dos departamentos de alimentos e bebidas nos hotéis mostramse grandes desperdiçadores de dinheiro, após contabilizadas todas as despesas. Os hoteleiros costumam considerar o serviço de A&B uma cortesia – um mal necessário que deve ser oferecido aos hospedes para ser competitivo. Muito poucos operadores têm conseguido pensar além desse raciocínio e administrar o serviço de alimentação como faz um verdadeiro restaurateur.

Em termos de departamento, os custos de alimentos e bebidas para um hotel giram em torno de 78% a 90%, o que equivale a 10% a 20% de margem de lucro. As despesas atribuídas ao departamento de A&B incluem o custo real da comida e bebida vendidas, salários, material operacional, uniformes e lavanderia. Não estão inclusas no cálculo do lucro departamental de A&B uma série de despesas como as administrativas e gerais, custos de vendas e marketing, aquecimento, eletricidade, manutenção e reparos, taxas administrativas, impostos sobre a propriedade, seguro e aluguel. Quando estas despesas adicionais são deduzidas da escassa margem de lucro do departamento, tornase fácil entender por que os hotéis geralmente operam suas instalações de alimentação no prejuízo.

Após esta simples análise financeira, a pergunta lógica é a seguinte: como é que os restaurantes independentes conseguem fazer dinheiro, enquanto geralmente os hotéis não conseguem atingir o ponto de breakeven? Em defesa dos operadores hoteleiros em nível mundial existem algumas simples razões que explicam porque, geralmente, uma instalação hoteleira completa nunca atingirá a mesma margem de lucro de um restaurante.
Por exemplo, os restaurantes de hotéis precisam operar em períodos não rentáveis. O café da manhã sempre foi um grande desperdiçador de dinheiro. Qual foi a última vez que você viu um restaurante três estrelas servir café da manhã? Por mais que o custo da comida possa ser um pouco menor para o café da manhã, os custos de mãodeobra e outras despesas são equivalentes aos de outras refeições.
O problema está na incapacidade de restaurantes em hotéis gerarem a mesma receita por cover (refeição) no café da manhã, tal qual no almoço ou jantar. O resultado é um período de refeição deficitário, sendo porém um serviço essencial para os hóspedes.

O prejuízo tornase ainda maior quando o serviço de quarto é um substituto para o café da manhã no restaurante. O custo adicional de mãodeobra para a entrega das refeições nos quartos e a recolha é astronômico e altamente deficitário. Algumas soluções para a redução do dispêndio com café da manhã incluem serviço de buffet, máquinas automáticas, café e suco no quarto. Alguns poucos hotéis, como o Regency de Nova Iorque, têm se saído bem ao posicionar seu restaurante como um lugar para um belo café da manhã a um preço mais alto. Se o restaurante Brennan´s em Nova Orleans, de fama mundial, consegue atingir um preço médio de café da manhã entre 30 e 50 dólares servindo um cardápio bem pouco sofisticado, os hotéis deveriam conseguir fazer o mesmo.

Muitos hotéis não foram projetados para expor suas instalações de serviços de A&B. Restaurantes de sucesso em hotéis têm sua própria identidade, inclusive estacionamento e entrada exclusivos, sinalização especial e boa visibilidade. A decoração do interior precisa incorporar as novas tendências dos restaurantes independentes, como cozinhas abertas, Martini bars e um visual inovador. O ambiente árido de alguns restaurantes de hotel simplesmente não atrai o público em geral.
A tendência atual para reverter um departamento de serviço de A&B que dá prejuízo é contratar um restaurateur (eventualmente um chef famoso) para assumir as operações, seja através de um contrato de gerência, ou arrendamento. Esses profissionais costumam trazer consigo um conceito que aumenta substancialmente a receita, por atrair não apenas os hóspedes, mas também os residentes da região. Os restaurateurs parecem estar mais preocupados com o controle de custos operacionais do que os hoteleiros e costumam ser mais empreendedores.

Alguns dos chefs famosos que se focam no serviço hoteleiro de alimentação são Emeril Lagasse, Todd English, Alain Ducasse e Larry Forgione.
Além de buscar o sucesso com um chef famoso, alguns hotéis optaram por incorporar um conceito de restaurante de marca. O Hilton descobriu esse potencial há 40 anos, quando formou uma joint venture com Trader Vics – um restaurante de estilo polinésio.Os hotéis de hoje em dia estão ligados a Ruth´s Chris, Wolfgang Puck, TGI Fridays, Pizza Hut, Starbucks e até mesmo McDonald´s.
Com a intensa concorrência do setor de serviços limitados, hotéis de serviço completo precisam oferecer diferenciais de forma a poder competir com os melhores restaurantes do mercado. Quando esta estratégia é implementada com sucesso, os hotéis obtêm melhores resultados no setor de alimentos e bebidas e, muitas vezes, até mesmo maiores taxas de ocupação e diárias.
fonte: HVS INTENATIONAL 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

SEGURANÇA NOS HOTÉIS



A Hotelaria é uma indústria de serviços e um bom serviço tem que incluir a segurança dos clientes. Um hotel com um excelente serviço, mas com uma política de segurança frágil poderia expor os hóspedes a riscos e comprometer a sua imagem e reputação. A verdade é que o cliente atual é mais sofisticado e exigente. Contudo, para atingir o grau de sofisticação do serviço oferecido, acompanhando os níveis de exigência do cliente, a indústria hoteleira vai ter que apostar cada vez mais na segurança.
No fundo, os hotéis são responsáveis pela proteção dos bens e do bem-estar dos seus hóspedes. Quando os clientes se hospedam num hotel procuram desfrutar dos bons momentos, quer estejam de férias ou em viagens de trabalho. Para isso é fundamental que se sintam confortáveis para deixar os seus bens nos quartos e passear tranquilamente pelos espaços (interiores e exteriores) do hotel.
Deste modo, a segurança deve ser encarada como um investimento essencial e não como uma despesa opcional. A instalação de sistemas de segurança eletrônico nos hotéis é já um procedimento relativamente comum e os atuais sistemas são desenhados para serem discretos e combinarem com a decoração dos espaços.
Além disso, a integração conjunta de soluções inteligentes, como a videovigilância (CCTV), detecção e extinção de incêndios, antifurto, sistemas de controlo de acessos, de detecção de intrusão, som ambiente e alarme por voz podem fornecer aos hotéis vários benefícios adicionais. Por exemplo, um sistema de controlo de acessos integrado com um sistema de circuito fechado de televisão (CCTV) permite que quando alguém não autorizado tenta aceder a uma zona privada, a câmara de videovigilância grave a imagem desse momento, para que a identidade da pessoa possa ser verificada. Em termos de segurança esta informação é preciosa, sobretudo porque os hotéis são espaços onde circulam muitas pessoas.
Um sistema de circuito fechado de televisão, além de garantir a segurança dos hóspedes de um hotel, e particularmente quando associado a soluções de análise de vídeo, pode converter-se numa ferramenta de market inteligência de alto valor, ao proporcionar informação sobre o número total de hospedados e quais os espaços mais freqüentados: a cafeteria, o bar, o lobby, etc. No caso de cadeias hoteleiras espalhadas por várias cidades e países, o sistema permite comparar a afluência em cada um dos hotéis do grupo, ao mesmo tempo em que permite analisar a relação dos hóspedes perante decorações ou espaços mais trabalhados, em função de campanhas especiais para a passagem de ano, noite de núpcias, dia dos namorados ou pacotes de Verão. Assim, consegue-se facilitar a incorporação de elementos diferenciadores nos serviços prestados, atraindo mais hóspedes.
A integração dos sistemas de segurança pode ajudar, ainda, os hotéis a acrescentar valor na gestão do negócio, ao realizar, por exemplo, o controlo de entradas no hotel, no parque de estacionamento e nos armazéns e supervisionar se os trabalhos associados às limpezas, ou à decoração, entre outros, estão a ser cumpridos nos horários previstos.
Outro aspecto relevante que tem marcado este sector de atividade prende-se com a crescente introdução das tecnologias de informação nas unidades hoteleiras, desenvolvendo a hotelaria a sua atividade desde o departamento de fatoração ao de pessoal, das comidas e bebidas ao alojamento, com base em sistemas de gestão informáticos.

 A aplicação de soluções inteligentes de gestão de edifícios ao serviço da hotelaria tem de ser vista como mais um serviço a par dos acima referidos e também como uma ferramenta de apoio à gestão da unidade hoteleira a qual permita utilizar o trabalho diário, melhorar funções, reduzir custos, aumentar a atuação e satisfação do hóspede, bem como criar novas fontes de receitas.
Efetivamente, para quem investe em tecnologia o conceito está a deixar de ser “Quanto custa por m2”, mas “Qual o retorno por m2”.
Todo este serviço quer os sistemas de gestão informáticos, quer as soluções de gestão técnica e de segurança de um hotel ou “resort” (iluminação,  águas, segurança, televisão e telefonia) podem partilhar a mesma infra-estrutura de comunicações assente sobre uma tecnologia de protocolo IP, reduzindo os investimentos iniciais de implementação de diversas infra-estruturas assim como os custos de manutenção inerentes às diversas infra-estruturas até agora implementadas para os diferentes serviços. A partilha da mesma infra-estrutura assente em tecnologia de protocolo IP, também vem facilitar a integração e interligação dos diversos serviços.
Para tornar os hotéis e instalações de lazer espaços ainda mais seguros, está em vigor desde um de Janeiro de 2009 o novo Regulamento Geral de Segurança Contra Incêndios em Edifícios (Decreto-Lei n.º 220/2008 de 12 de Novembro), que vem estabelecer o regime jurídico de Segurança Contra Incêndios em Edifícios e determinar as respectivas condições de segurança contra incêndios a aplicar a todas as utilizações de edifícios, bem como recintos itinerantes ou ao ar livre.
Os hotéis e as instalações de lazer são ambientes complexos, nos quais a atenção a ameaças internas e externas nunca deve ser descurada. Nestes espaços exige-se que a proteção contra incêndios e a segurança sejam completamente discretas, impondo sempre padrões muito mais elevados do que os de qualquer outra situação. Os hotéis representam um enorme desafio, pois, muitas vezes trata-se de edifícios antigos, com rotatividade de pessoal bastante elevada, com muitos hóspedes com características e atitudes muito heterogêneas, que desconhecem as instalações e o modo de utilização das mesmas. Assim, é determinante possuir os recursos e o pessoal capazes de proteger colaboradores e visitantes, preservando o bem mais valioso – a vida humana.
Logo que seja implementado um sistema de segurança e de proteção contra incêndio efetivo, os empregados podem trabalhar com mais confiança e os hóspedes podem aproveitar devidamente a sua estadia, com a certeza de que o risco de ocorrer uma situação desagradável, como um roubo, uma abordagem criminosa, ou a deflagração de um incêndio está minimizado. A forte concorrência no sector hoteleiro torna primordial não descurar o tema segurança a todos os níveis, uma vez que também está associado à satisfação do cliente, logo ao sucesso do hotel.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O PROFISSIONAL DO FUTURO NA HOTELARIA

Escrito por Mauro Kaluf
Não me parece possível falar do profissional do futuro sem antes tentar compreender o que o futuro trará, ou como ele será.
Certamente não é possível prevê-lo com exatidão, mas podemos estar atentos às tendências, e em minha opinião ninguém até hoje as avaliou tão bem quanto John Naisbitt, que escreveu alguns livros como Megatrends 2000, O Líder do Futuro, e Paradoxo Global.
No início da década de 80, ele escreveu seu primeiro livro, prevendo para os 20 anos seguintes a crescente queda de barreiras rumo à globalização, a diminuição do poder dos Estados na economia, as ondas de privatizações, a individualização como cerne de um novo ciclo cultural humano, o crescimento do número de mulheres no mundo do trabalho, o renascimento das artes e da religiosidade, a migração do principal eixo econômico do Oceano Atlântico para o Pacífico e Índico, a constante miniaturização de equipamentos eletrônicos visando a redução de custos de transportes, entre outros.
Seu mais novo livro sobre o assunto, escrito em 2000, já está acontecendo. Fala da passagem de uma sociedade industrial para uma economia de informação; que a atuação estratégica das empresas centrar-se-á na tecnologia e na respectiva resposta humana a ela; a passagem de uma atuação de curto prazo para o longo prazo; a redescoberta da capacidade de inovar e obter bons resultados; a maior capacidade individual para assumir responsabilidades e tomar decisões. Alertou-nos, também, para a progressiva obsolescência do modelo de democracia representativa em face da exponencial partilha de informações; para a redução da importância das hierarquias e a sua substituição por redes de trabalho informais e para as novas necessidades de formação escolar e profissional em ordem a respondermos aos desafios do futuro.
Somo a estas as minhas próprias previsões: 1) o crescimento consistente da economia de nosso país, e o alcance cada vez maior da classe D e C a novos objetos de consumo, entre eles o sonhado pacote de férias em família. Isso impulsionará a hotelaria de lazer, principalmente a econômica para além dos números já crescentes nos últimos 5 anos em nosso país. Olhemos para as grandes redes hoteleiras e perceberemos esse movimento iniciado no eixo executivo. Estamos a um passo pequeno da Hotelaria econômica de lazer estruturada em rede. O futuro já se escreve hoje. É fato. 2) A regulamentação de nossa profissão não demorará mais 20 anos.
Talvez não demore mais 5. E eu espero realmente que não demore. Os benefícios que traria a regulamentação seriam infinitos, não só para que as universidades tivessem um padrão mínimo de formação
curricular, e a conseqüente melhora na qualificação profissional, como emprestaria respeito e dignidade aos profissionais que atuam ou pretendem atuar nesta área, certamente traduzindo isso em melhores remunerações e qualificação, sem falar nas possíveis políticas de sustentabilidade econômica que seriam agregadas à nossa área, estas advindas do interesse político público e privado.
Isso por si já é bastante informação para lidar. Daí pra frente, teremos que fazer um exercício individual de reflexão, pois as mudanças que Naisbitt nos apresenta ainda não traduzem comportamentos nem o desencadeamento cultural/ empresarial que será provocado por estas mudanças. São apenas as pistas de um  processo longo, que se desenrolará na arena das corporações, dos lares, do meio acadêmico e da cultura, entre outros tantos cenários.
Na Hotelaria de forma geral, a maior parte das mudanças não está no que fazemos, e sim em como fazemos. Parece que é de bom senso pensar que não alteramos muito a forma de hospedar alguém. Providenciar alimento, segurança, uma cama limpa e um bom banho para outrem é antigo. O que mudou foi, portanto, a forma de fazê-lo.
Ao me perguntarem como o Profissional do Futuro da Hotelaria será, faço algumas considerações. Não sou partidário do antigo romantismo de algumas empresas, que fazem uma lista infindável de características que uma pessoa deve ter para trabalhar em um hotel, pois aprendi que talento tem preço. Ao desejar atender a esta lista, preciso refletir no quanto estamos dispostos a pagar por um profissional tão ¨super-homem¨. Alguns de nós simplesmente não estamos prontos para fazer o desencaixe necessário, essa é a verdade.
Em mercados competitivos como o nosso, com margens cada vez mais apertadas, necessidade de remuneração do patrimônio investido, guerra de preços, e um evidente ¨apagão da mão de
obra¨, nos resta a reflexão pausada e sincera. Deixemos de lado o sonho do profissional ideal, sem nos desfazer de nossos sonhos antigos de qualidade da hospitalidade, mas vamos ter que casar isso tudo, pois está tudo no mesmo caldeirão. E o fogo está aceso embaixo.
A área de serviços, reconhecidamente NO MUNDO paga menores salários que o comércio e a indústria. Nem falaremos na indústria da tecnologia. Capítulo à parte.
Há aqui o primeiro paradoxo a ser enfrentado: queremos mais por menos. Minha resposta: isso não será possível no futuro. Hoje já está difícil. No futuro não nos esquivaremos do custo da qualidade formativa da mão de obra. Olhando por outro lado, mais salários e mais empregos, que fecham um circulo virtuoso. Não pode ser tão ruim assim.
Ainda enfrentamos um problema sério por aqui, herdado dos países ricos, enquanto cultura. Na Europa e Estados Unidos temos uma resistência dos cidadãos nativos em prestarem serviços mais simples, como o de garçons, arrumadeiras e auxiliares de limpeza.
As políticas sociais protecionistas fazem com que famílias (e gerações) inteiras vivam de auxilio governamental, porém tendo estes cidadãos se aculturado, e estudado também com o benefício e apoio de seus Estados.
No Brasil semelhante movimento se apresenta, com o agravante de que as pessoas, mesmo sem muito estudo, já não desejam mais prestar este tipo de serviços menos complexos.
Particularmente observo com reserva as políticas assistencialistas adotadas pelo nosso governo nos últimos anos. Tenho medo do que a longo prazo se estimulará enquanto cultura para o trabalho.
Pessoalmente enfrento em meus hotéis o problema de contratar alguém que quer ficar por 6 meses e depois ser demitido para poder depender do auxílio desemprego, e até mesmo do Bolsa Família.
Acredite: é fato, e simplesmente não é possível detectar isso tão facilmente nos processos seletivos que promovemos. O Dalai Lama, em seu livro ¨Uma Ética para um Novo Milênio¨ reforça seu espanto ao constatar em suas viagens a cultura da ética do ter em detrimento da ética do ser. Somos levados diariamente ao estímulo de consumo, reforçando isso como traço cultural. Vejo a geração imediatamente anterior à minha acreditando que o sucesso acontece antes do trabalho, e isso só acontece no dicionário, não na vida real. Neste livro o Dalai Lama lembra que numa sociedade em que se busca freneticamente a independência (através da ambição quase universal de todos terem seu próprio carro, próprio computador, própria casa, para serem o mais independente que puderem), nos leve de imediato ao raciocínio de que a felicidade dos outros passa a não ser responsabilidade nossa.
Perigoso esse raciocínio. Do caminho, nem falo. Não vou falar de crise de valores, mas vou provocar a reflexão sobre a ética apoiada na honra (passado) versus a ética apoiada no sucesso e na fama (hoje). Há inúmeros exemplos disso, e não cabem aqui porque precisamos preencher este espaço com soluções, mais que com críticas. A programação da TV aberta em nosso país é o exemplo de como estamos tratando este assunto. Penso que HOJE é o passado de nosso futuro. Portanto, tudo o que quisermos que esteja escrito em nosso passado, lá na frente, deverá ser feito no presente. Simples questão de interpretação ideológica do tempo. Não será possível ter um futuro sem tê-lo escrito, e esta chance nos é dada diariamente.
Esse raciocínio me leva a acreditar que o Profissional do Futuro está sentado em nossos bancos escolares neste exato momento. Está sendo conduzido (ou arrastado) por nossa cultura, e colherá tudo o que está sendo plantando HOJE. Por isso, se precisamos mudar algo para o futuro, estamos atrasados. Há muito trabalho a ser feito.
Para falar desse Profissional, portanto, preciso trabalhar aqui o que serão os eixos de sustentabilidade que acredito necessários para seu desenvolvimento. Segue abaixo alguns conselhos que eu daria a uma pessoa que deseja saber se está na direção certa, escolhendo a carreira da Hotelaria:
1) O Profissional do Futuro da Hotelaria não deve se deixar levar por uma visão idealizada e romântica da área, mas deverá ser VOCACIONADO. O trabalho por vocação é insubstituível. Ter prazer no que se faz é imprescindível em um país onde se leva de 30 a 35 anos para se aposentar, e evita bastante sofrimento. Descobrir se este profissional tem vocação para servir é, portanto, fundamental.
2) Vocação para servir não vem do nada. É subjetivo até certo ponto, mas é possível prenunciar a existência de atributos que nos levam à vocação para o serviço. Um exemplo disso: essa pessoa gosta de pessoas? Se sente bem com elas? Valoriza os desejos de outros? Se sente feliz quando é útil?
3) Procure por traços como a EMPATIA. Esta pessoa se ressente com a dor de outros? É capaz igualmente de compartilhar genuinamente a alegria dele com alguém, ou a alegria de alguém lhe faz bem? Nós sabemos quando há relações interessadas e desinteressadas. Sabemos também quando a emoção do outro nos toca. Estes traços, estando presentes, ajudarão na construção de um Profissional Feliz do Futuro.
Alguém que prefere as relações desinteressadas às relações interessantes pode estar no caminho certo.
4) Compaixão parece uma palavra tola. Não a subestime na hotelaria. A capacidade de se envolver de forma madura com os sentimentos dos outros é uma habilidade rara. Proveniente de nosso conjunto de valores e crenças, esta habilidade quando presente de maneira natural no conjunto de crenças individuais faz muita diferença no sucesso de qualquer profissão onde se lida com gente.
5) Há nessa pessoa obstinação por resultados? Por se tratar de uma área de serviços, é preciso entregar o que se vende, e cumprir o que foi prometido. Pessoas que sonham sem  capacidade de realização talvez se dêem bem em outra área, mas devem evitar gerenciar hotéis, que é um todo bastante complexo.
6) Diante dos cenários propostos por John Naisbitt, essa pessoa deverá ser capaz de assumir responsabilidades e trabalhar em grupos, assumindo para si o papel de catalisador de resultados dos processos.
7) Obviamente o Profissional do Futuro da Hotelaria é competente tecnicamente. Deve estudar muito, ou deverá ter tido uma carreira que lhe tenha possibilitado aprender na prática. Há na hotelaria áreas complexas individualmente, e muito mais complexas quando interdependentes. Só para citar algumas, pense na complexidade da área administrativa financeira de um hotel, em sua área de manutenção, TI e informática, lavanderia e governança, recepção e reservas, comercial, de marketing, de recursos humanos, passando por alimentação, qualidade, segurança e eventos. Costumo dizer que cada uma dessas áreas é um bicho específico, que fala uma língua própria. Gerenciar isso tudo possuindo boa qualificação técnica já não é muito fácil, acredite. Uma engrenagem de ajustes finos, como um relógio suíço. Preciso saber o que estou fazendo, antes de abri-lo e desmontá-lo.
8) Se as hierarquias estarão diminuídas, será preciso ter uma boa capacidade de raciocínio lógico, flexibilidade, resiliência, capacidade de diagnóstico de cenários, criatividade, e inteligência prática, sem falar em habilidades desenvolvidas de liderança.
9) Por último, e não menos importante, o aspecto de uma personalidade ética soma pontos a todos os quesitos acima. Em ambientes corporativos complexos, onde o patrimônio está dividido entre vários proprietários, este aspecto deveria estar no primeiro lugar da lista. Ao observarmos o que escrevi acima, apesar de ter feito uma lista cuja existência critiquei logo no início desta apresentação, defini tão somente um Administrador de Empresas com algumas qualidades HUMANAS somadas, como compaixão, e empatia. Acredito que a melhor forma de ver o Profissional do Futuro da Hotelaria ter sucesso é pensar nele como uma pessoa vocacionada, apaixonada e tecnicamente eficaz e preparada. Não há muito segredo aqui. Esqueci de dizer que precisamos também resgatar um pouco do orgulho em prestar serviços, uma prática que vem sendo confundida ao longo do tempo com ser serviçal. Tomara que este profissional do futuro possa compreender a grandeza de prestar serviços e ser útil a alguém...
É disso que se trata ser hoteleiro no final.