sábado, 17 de dezembro de 2011

A CAMAREIRA





Ficção? Polêmico, o livro do autor alemão Markus Orth, é uma excelente leitura divertida para os profissionais da hotelaria

Depois de ler A camareira, livro lançado pela L&PM, suas estadias em hotéis nunca mais serão as mesmas. A premiada obra do alemão Markus Orth conta a história de uma camareira nada convencional (ou será que todas são assim?). Para você sentir o clima, divulgamos aqui duas matérias publicadas em jornais da Alemanha. A tradução destes textos é de Guilherme Braga. A tradução do livro é de Mário Luiz Frungillo.
Que lugar curioso é um quarto de hotel! Um ambiente íntimo, tão longe dos olhos do mundo exterior quanto a nossa própria casa, porém ao mesmo tempo um lugar para todos. Os quartos de hotel oferecem intimidade temporária – uma intimidade indiscriminada e em série, à disposição de todos os que podem pagar. São, para dizer de forma drástica, as prostitutas dentre os quartos. A limpeza não é apenas uma questão de higiene. Diz respeito aos rastros deixados pelos outros. Estes precisam ser apagados para que um quarto de hotel funcione como deve: como uma esfera que aparenta ser própria, apesar de toda a estranheza que encerra.
Um hotel é um lugar ideal para a heroína do novo romance de Markus Orths. Linda Maria Zapatek, nascida em 1975, com 1,65 de altura, olhos verdes e cabelos castanhos, é camareira do Hotel Eden, e uma camareira nada convencional. Pois Linda, que refere a si própria como Lynn, diverte-se com o trabalho. Limpa com paixão e com vontade; se arrasta de joelhos, se enfia debaixo das camas e deixa as unhas dos polegares crescerem para ter sempre um instrumento de raspar e de esfregar à mão. O que mais gostaria de fazer seria tirar os azulejos das paredes, a fim de apagar os últimos traços de sujeira que se escondem por trás. Um comportamento anormal, como logo percebe o leitor, a quem Lynn parece uma personagem a um só tempo simpática e estranha.
Lynn é a camareira que todos gostaríamos de ter antes de entrar em um quarto de hotel. Mas assim que passássemos a ver o quarto como nosso, não desejaríamos, em hipótese alguma, que fosse frequentado por uma pessoa assim. Pois Lynn participa da intimidade dos hóspedes. É uma espécie de vampira, que se deleita com cada traço deixado pelos hóspedes do hotel. E tira conclusões próprias. "Pantufas? Uma estadia mais longa. Frigobar saqueado? Descomedimento. O pijama não está em cima da cama? O hóspede dormiu nu, ou melhor, o pijama está no armário, pois já o atirou lá dentro." Lynn examina até mesmo as calcinhas, por vezes veste uma peça de roupa, vasculha nécessaires e esvazia-as para fazer uma limpeza completa.
Terça-feira debaixo da cama
O que se passa com esta mulher? Fica claro que Markus Orths não quer rotular o distúrbio que levou Lynn a uma clínica psiquiátrica. O termo "terapia de confronto" fica sugerido, e há indícios de que Lynn possa ser cleptomaníaca. De qualquer modo, a personagem comporta-se de maneira estranha em relação ao espaço, à sujeira e à corporalidade – e também em relação à própria mãe. Qualquer contato físico ou diálogo sincero entre as duas é impossível, e portanto usam um "intérprete de sentimentos". Mesmo assim, Lynn sempre espera que, em uma das ligações semanais, a mãe ao menos uma vez pudesse dizer uma frase que já não soubesse de cor e que de alguma forma a tocasse.

Até que um certo dia encontra Chiara, ou, a princípio, apenas a voz de Chiara, que soa como um violoncelo. Pois na ocasião Lynn está debaixo da cama de um hóspede (uma paixão desfrutada todas as terças-feiras) e presencia a maneira como o homem se satisfaz. Então rouba o cartão da prostituta e telefona para ela. E pela primeira vez Lynn sente algo como proximidade e reciprocidade, "é apenas um corpo que sente e perde o controle".
Embora comece a ter encontros pagos regulares com Chiara, Lynn segue passando um dia por semana debaixo da cama de um quarto ocupado por hóspedes aleatórios. Lá, sente-se protegida na presença de um estranho. E encara esse modo de proceder como um trabalho de amor. Por fim deseja – no sufocante presente em que todo o romance é narrado – que ao menos uma vez alguém pudesse ficar debaixo de sua própria cama: "Queria que ao menos uma vez alguém escutasse a minha vida". O que para outros seria um pesadelo, para esta mulher parece ser a mais pura felicidade.
Com excertos de A camareira (Das Zimmermädchen), Markus Orths ganhou o prêmio da Telekom Austria AG durante os dias de Literatura germanófila em Klagenfurt. Com razão. Mesmo assim, o romance é menos convincente como retrato de uma mulher do que como espelho dos nossos mais corriqueiros temores. Orths toca com maestria o teclado da nossa perturbada sensação de espaço. As relação entre proximidade e distância, estreiteza e amplitude, presença e ausência sofreram profundas transformações com as mídias eletrônicas e a mobilidade cada vez maior. Uma relação perturbada com o espaço deixou há muito tempo de ser patológica. É o simples dia a dia. Hoje as pessoas estão sempre a caminho, seja na realidade ou no mundo virtual. Raras vezes estabelecem contato com o o ambiente que as rodeia, pois isolam-se voluntariamente (com fones de ouvido, leituras, cara amarrada) e encontram-se ausentes até mesmo no próprio lugar onde estão presentes. O quarto de hotel é o ponto de fuga desta viagem.
A camareira põe o dedo na ferida das companhias de prestação de serviços móveis e nos mostra que somos vistos e ouvidos por todos aqueles que facilitam a nossa vida e cujos olhos e ouvidos precisamos esquecer a fim de desfrutar o conforto comprado. Em prosa sucinta, Markus Orths explora um tema que toca em um profundo medo da modernidade: a incapacidade de proteger a própria esfera íntima.
Do jornal alemão Tages-Anzeiger - Por Hajo Steinert
Tem uma camareira debaixo da cama
No novo romance A camareira, Markus Orths deixa a protagonista bisbilhotar à vontade – com resultados impressionantes.
Existem mulheres estranhas. Lynn é uma delas. Nascida em 1975 e com 1,65 de altura, tem nojo de jornais. Corre ao sol pelo parque com uma blusa grossa e entra em lojas e aqui e acolá para pôr no carrinho as mesmas mercadorias escolhidas pelos clientes que de fato compram alguma coisa. Não há dúvida: esta mulher tem problemas.

O que gosta de fazer? Descascar rabanetes. Gosta ainda mais de limpar. Após receber alta de uma clínica psiquiátrica depois de uma estadia de seis meses e de ser abandonada por Heinz, começa a deixar as unhas dos polegares crescerem – para assim poder raspar melhor as sujeiras que grudam nas torneiras do banheiro. Lynn conseguiu um emprego. Ela é camareira em um hotel.
Todo esse raspar, organizar, arrumar, limpar, tirar o pó, estender, cobrir, arejar, esvaziar, pôr chocolatinhos em cima do travesseiro e afins, no entanto, não apenas a satisfaz; a atividade a desperta e possibilita – da maneira mais terapêutica possível – que entre em contato consigo mesma. Poucas vezes – se é que existiram outras – viu-se na literatura uma mania por limpeza tal como a que se vê neste romance.
Bisbilhotices nos quartos do hotel
Pelos de barba na pia? Sinal de vida absolutamente normal. As nécessaires dos hóspedes? Estas são examinadas a lupa, com a minúcia de um detetive. Não há detalhe que não estimule a fantasia de Lynn. "Um relógio masculino no criado-mudo? O homem vai ter que perguntar as horas no caminho." Um fuxicar e um bisbilhotar, um revirar e um remexer solitário. Lynn chega ao ponto de cheirar calcinhas usadas.
Também experimenta peças de roupas em tamanhos maiores. Não há dúvida de que esta mulher assume uma identidade atrás da outra, sem contudo encontrar uma identidade própria no fim. Isto é o que há de lúgubre nesta prosa, que vive em boa parte da encenação em um palco irreal e bizarro, embora totalmente original.
O começo de uma comédia de bulevar
Enfim acontece o que não poderia deixar de acontecer. Enquanto Lynn mais uma vez fuxica em um quarto, desta vez com o pijama do hóspede por cima do uniforme de camareira, escuta alguém do lado de fora da porta. Uma tensão insuportável. Tem início o teatro de câmara. A comédia de bulevar começa. "A porta se abre, o hóspede adentra o quarto. E Lynn? Desapareceu. Enfim o coração dá sinais de vida. Ela está debaixo da cama. É uma cama de casal. Ainda está com o pijama. Lynn apoia a cabeça de lado. Consegue ver as pernas do homem que entra na banheira. Escuta a água correr na ducha. Eis a chance. Ela sai do esconderijo. Olha em direção à porta do banheiro – não há nada –, dobra o roupão e enfia-o debaixo das cobertas. E agora?
Percebe-se que o autor escreve uma prosa apressada. As frases são curtas e por vezes sufocantes, em perfeita sintonia com a situação descrita. Ele sabe como provocar tensão. Sim, pois transforma o leitor a quem as bisbilhotices descritas a princípio parecem dolorosas não apenas em testemunha, mas também em participante. O que acontece quando o hóspede desliga o chuveiro? Direi apenas que a camareira fica debaixo da cama até a manhã seguinte.
Esta primeira vez causa tamanha impressão em Lynn que, a partir de então, decide passar todas as noites de terça-feira debaixo da cama do quarto 303 e, com a mão sempre firme no estrado da cama, presencia as mais corriqueiras ações de hóspedes perfeitamente normais. O experimento transforma-se em um ritual. Lynn usa o ritual como se fosse a consulta semanal ao terapeuta ou as ligações semanais da mãe, que nos dão a entender que esta última é em parte responsável pelos distúrbios de personalidade da filha.
Até que um dia uma garota de programa aparece em cima do colchão e submete o homem às mais rudes técnicas amorosas. Quem é essa garota de programa? O que a mulher em casa diria sobre a estadia do noivo no hotel? Lynn investiga, sai à procura, começa a seguir as duas mulheres, conhece-as e a ação fica a cada instante mais intensa.

Não é necessário ser um leitor com formação em psicologia para desvendar as causas da tristeza de uma mulher que vive fora do mundo. A única coisa que se pode criticar nesta prosa lacônica e lúcida – em especial nos diálogos – é o fato de permitir à protagonista que tome a iniciativa mas, no fim, não deixar que cresça como pessoa.
Uma história Aventuresca e hilária
Uma hora mais tarde terminamos a leitura desta competente narrativa com traços dramáticos sem, no entanto, ter lido o que a indicação de categoria promete: um romance. Que seja. A camareira não é tão bom quanto Lehrerzimmer (2003), até agora o melhor romance de Markus Orths – mas tampouco esquecemos a história aventuresca, hilária e lúgubre ao extremo.
O leitor vai se lembrar da camareira quando fizer a próxima reserva de hotel. E também quando se decepcionar por mais uma vez não ter encontrado uma cama de formato apropriado para que uma colega de Lynn pudesse esconder-se. Hoje em dia as camas de hotel simplesmente têm pés baixos demais.